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01/03/2008 16:23
A TPM, como o nacionalismo, é criação da cultura moderna
No texto "O nacionalismo, como a TPM, é criação da cultura moderna", tratei do nacionalismo como uma síndrome moderna, gerada logo após a Revolução Francesa e nutrida ao longo do século 19 concomitantemente com a onda de revoluções burguesas que rondou a Europa e em seguida o resto do mundo.
Em certo momento do texto, comentei: "No entanto, o nacionalismo é uma criação recente do mundo, mais ou menos como a TPM (a tensão pré-menstrual) da mulher, o comunismo, o samba, o jazz e a arte abstrata. São manifestações culturais contemporâneas, não existiram por toda a história da humanidade e possivelmente venham no futuro a desaparecer."
A idéia de que a Tensão Pré-menstrual (TPM) seja uma manifestação cultural e, mais especificamente, recente, parece inverossímil ao senso comum contemporâneo. Aliás, como dizia o próprio texto mais adiante: "O homem contemporâneo tem, naturalmente, dificuldade de recordar como as coisas chegaram a ser como são hoje. O mundo ao seu redor tem aparência de naturalidade."
Pessoalmente, por telefone e em um comentário ao texto, pessoas me perguntaram como isso era possível ou criticaram a frase como errada. Evidentemente, como sexo é mais popular do que política, mais gente criticou a referência à TPM do que ao nacionalismo; nos dois casos, a crítica parte da idéia de que ambos são "naturais" (a TPM) ou "antigos", uma forma de afirmar sua condição de essencial à cultura humana.
Não sou especialista em medicina da mulher (tampouco sou especialista em ciência política, mas li mais sobre isso do que aquilo) mas há alguns tratados razoavelmente conhecidos sobre o assunto que já vêm consolidando duas idéias sobre a sexualidade da mulher:
1. que a TPM é uma síndrome típica do mundo urbanizado (e este só passou realmente a existir após a Revolução Industrial e, perfeitamente, na segunda metade do século 20).
2. concomitantemente à urbanização do planeta, quando a mulher foi desenvolvendo a TPM, também foi se antecipando a menarca, ou da primeira menstruação das mulheres, que por isso mesmo ocorre cada vez mais cedo, em média, entre as mulheres das grandes cidades do mundo. O momento da primeira menstruação ou da puberdade feminina varia muito de família para família e de cidade para cidade, de país para país. Mas há um aspecto universal: as jovens mulheres das grandes cidades estão ficando menstruadas mais cedo. E isso é comumente apontado como conseqüência da "sexização" da cultura contemporânea, que fala, pratica, cultua o sexo como nunca antes na história deste planeta.
3. concomitantemente à urbanização do planeta, quando a mulher foi vivendo essa antecipação da menarca, ficando menstruada cada vez mais cedo, nas grandes cidades do mundo as sociedades passaram a ter também taxas de fecundidade cada vez menores. As dezenas de filhos por mulher do século 18 foram substituídas pelo 1,5 filho (ou menos) típico de grandes cidades do início do século 21.
Esses três fenômenos se correlacionam. Possivelmente, o primeiro é causado pela combinação do segundo e do terceiro.
Um texto muito interessante sobre o assunto foi publicado na edição de 10 de março de 2000 da revista americana The New Yorker. Sob o nome de John Rock's Error (O Erro de John Rock), o texto de Malcolm Gladwell contava a história do inventor da pílula anticoncepcional e de como ele, um católico fervoroso, havia criado o remédio como uma solução para distúrbios do ciclo hormonal, não como uma forma de evitar a concepção. E então enveredava para uma discussão sobre a menstruação na sociedade moderna e as diferentes visões médicas sobre o assunto, incluindo uma longa referência aos trabalhos do médico brasileiro Elsimar Coutinho, que considera a menstruação obsoleta.
O texto narrava a pesquisa feita por uma cientista norte-americana que procurou encontrar um grupo humano que viva de forma absolutamente tradicional e preservado das influências da sociedade contemporânea, para determinar como é o funcionamento natural do corpo da mulher.
O texto narrava: "Em 1986, a jovem cientista Beverly Strassmann viajou para a a África para viver com os Dogon, uma tribo do Mali (país da África Ocidental, dominado ao norte pelo deserto do Saara). O local de sua pesquisa era a vila de Sangui, no Sahel (o limite do grande deserto), cerca de 200 quilômetros ao sul de Timbuktu. Sahel está localizada em uma região de transição entre a savana e o deserto, é verde na época das chuvas e semi-árido o resto do ano. Os Dogum plantam painço, sorgo, cebolas, criam gado e vivem em casas de adobe nas falésias de Bandiagara. Eles não usam métodos contraceptivos. Muitos deles mantêm os costumes e religião de seus ancestrais. Os Dogon de hoje, em muitos sentidos, vivem como os povos desse local viviam desde a Antiguidade.
Ao procurar um povo enraizado, uma raridade no mundo contemporâneo (em que a maior parte dos povos é migrante), vivendo de forma tradicional mais ou menos onde sempre esteve, a pesquisadora procurou encontrar o funcionamento do ciclo menstrual e dos costumes reprodutivos de uma cultura arcaica. Em outras palavras, ela queria encontrar como funcionava a reprodução humana antes da nossa era no milênio anterior a nosso tempo, como diz o autor no artigo da New Yorker.
Quando menstruadas, as mulheres Dogon ficam em uma casa separada do resto da vila. Na aldeia em Sangui, onde Beverly Strassmann ficou durante dois anos e meio, havia duas casas dessas para as mulheres menstruadas. Seu trabalho consistia em listar todas as mulheres da aldeia, classificá-las quanto a idade e anotar cada vez que iam para a casa das menstruadas, quando ficavam grávidas e quando amamentavam.
Em resumo, sua conclusão mostra que nas sociedades tradicionais, pré-Era Industrial, as mulheres ficavam menstruadas mais tarde (em torno dos 16 anos), ao longo de sua vida fértil tinham muitos filhos e enquanto amamentavam seus hormônios reprimiam a ovulação (e portanto elas não menstruavam por aproximadamente 20 meses somando gravidez e amamentação). Assim, da menarca à menopausa (em torno dos 50 anos) a mulher Dogon tinha cerca de 100 menstruações. Já a mulher típica de uma sociedade urbanizada contemporânea tem em sua vida fértil entre 350 e 400 menstruações.
Em outras palavras, ao longo dos dois últimos séculos, a cultura moderna multiplicou por quatro o número de menstruações da mulher, aumentando todos os desgastes decorrentes desse processo.
A hipótese de muitos estudiosos é que a TPM é uma conseqüência desse mesmo processo. A multiplicação do efeito dos hormônios e dos desconfortos decorrentes da menstruação, do seu desgaste físico e psicológico teria como efeito a Tensão Pré-Menstrual, inexistente ou benigna nas sociedades tradicionais.
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O texto de Malcolm Gladwell para a New Yorker está disponível no site do autor (http://www.gladwell.com/).
O trabalho do professor Elsimar Coutinho pode ser conhecido em seu site www.elsimarcoutinho.com.br, onde há uma seção com a lista de seus trabalhos, ou através do livro mais famoso, Menstruação, a Sangria Inútil.
Com uma trajetória próxima da de Elsimar mas divergente sobre o uso de hormônios artificiais para corrigir o funcionamento obsoleto da menstruação e do ciclo hormonal da mulher, o médico Eliezer Berenstein é autor de livros e conferências sobre TPM. Seus trabalhos podem ser conhecidos em seu site www.tpm.com.br onde relaciona seus livros, como A Tensão Pré-Menstrual e o Tempo para Mudanças.
enviada por L
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