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18/08/2008 15:13

NA VIDA DE UM HOMEM, UM POEMA

In a man's life / Na vida de um homem
Por YEHUDA AMICHAI

In a man's life
Na vida de um homem
the first temple is destroyed and the second temple is destroyed
o primeiro templo rui, e o segundo templo rui.
and he must stay in his life,
e ele precisa tocar a vida
not like the people that went into exile far away,
não como o povo que foi para um exílio distante,
and not like God,
e não como Deus,
who simply rose to higher regions.
que pega e sobe para lugares mais altos.

In a man's life
Na vida de um homem
he resurrects the dead in a dream
ele ressuscita os mortos num sonho
and in a second dream he buries them.
e em um segundo sonho os enterra.

***

(Publicado na revista New Yorker em 26/12/2005;
Tradução LS em 2007)

enviada por L



17/06/2008 23:24

Oi amigos: vcs são convidados para o lançamento de meu livro

Convite
A Livraria Cultura e a Clio Editora
convidam para o lançamento do livro
Cidade Limpa
O projeto que mudou a cara de São Paulo
de Leão Serva
Dia 19/06 (quinta-feira) a partir das 19h
No andar TERREO da Livraria Cultura
Conjunto Nacional
Av. Paulista, 2.073 – Cerqueira César
São Paulo – SP

GENTE, ATENÇÃO: Andar térreo, junto ao café.

enviada por L



01/03/2008 16:23

A TPM, como o nacionalismo, é criação da cultura moderna


No texto "O nacionalismo, como a TPM, é criação da cultura moderna", tratei do nacionalismo como uma síndrome moderna, gerada logo após a Revolução Francesa e nutrida ao longo do século 19 concomitantemente com a onda de revoluções burguesas que rondou a Europa e em seguida o resto do mundo.

Em certo momento do texto, comentei: "No entanto, o nacionalismo é uma criação recente do mundo, mais ou menos como a TPM (a tensão pré-menstrual) da mulher, o comunismo, o samba, o jazz e a arte abstrata. São manifestações culturais contemporâneas, não existiram por toda a história da humanidade e possivelmente venham no futuro a desaparecer."

A idéia de que a Tensão Pré-menstrual (TPM) seja uma manifestação cultural e, mais especificamente, recente, parece inverossímil ao senso comum contemporâneo. Aliás, como dizia o próprio texto mais adiante: "O homem contemporâneo tem, naturalmente, dificuldade de recordar como as coisas chegaram a ser como são hoje. O mundo ao seu redor tem aparência de naturalidade."

Pessoalmente, por telefone e em um comentário ao texto, pessoas me perguntaram como isso era possível ou criticaram a frase como errada. Evidentemente, como sexo é mais popular do que política, mais gente criticou a referência à TPM do que ao nacionalismo; nos dois casos, a crítica parte da idéia de que ambos são "naturais" (a TPM) ou "antigos", uma forma de afirmar sua condição de essencial à cultura humana.

Não sou especialista em medicina da mulher (tampouco sou especialista em ciência política, mas li mais sobre isso do que aquilo) mas há alguns tratados razoavelmente conhecidos sobre o assunto que já vêm consolidando duas idéias sobre a sexualidade da mulher:

1. que a TPM é uma síndrome típica do mundo urbanizado (e este só passou realmente a existir após a Revolução Industrial e, perfeitamente, na segunda metade do século 20).

2. concomitantemente à urbanização do planeta, quando a mulher foi desenvolvendo a TPM, também foi se antecipando a menarca, ou da primeira menstruação das mulheres, que por isso mesmo ocorre cada vez mais cedo, em média, entre as mulheres das grandes cidades do mundo. O momento da primeira menstruação ou da puberdade feminina varia muito de família para família e de cidade para cidade, de país para país. Mas há um aspecto universal: as jovens mulheres das grandes cidades estão ficando menstruadas mais cedo. E isso é comumente apontado como conseqüência da "sexização" da cultura contemporânea, que fala, pratica, cultua o sexo como nunca antes na história deste planeta.

3. concomitantemente à urbanização do planeta, quando a mulher foi vivendo essa antecipação da menarca, ficando menstruada cada vez mais cedo, nas grandes cidades do mundo as sociedades passaram a ter também taxas de fecundidade cada vez menores. As dezenas de filhos por mulher do século 18 foram substituídas pelo 1,5 filho (ou menos) típico de grandes cidades do início do século 21.

Esses três fenômenos se correlacionam. Possivelmente, o primeiro é causado pela combinação do segundo e do terceiro.

Um texto muito interessante sobre o assunto foi publicado na edição de 10 de março de 2000 da revista americana “The New Yorker”. Sob o nome de “John Rock's Error” (O Erro de John Rock), o texto de Malcolm Gladwell contava a história do inventor da pílula anticoncepcional e de como ele, um católico fervoroso, havia criado o remédio como uma solução para distúrbios do ciclo hormonal, não como uma forma de evitar a concepção. E então enveredava para uma discussão sobre a menstruação na sociedade moderna e as diferentes visões médicas sobre o assunto, incluindo uma longa referência aos trabalhos do médico brasileiro Elsimar Coutinho, que considera a menstruação “obsoleta”.

O texto narrava a pesquisa feita por uma cientista norte-americana que procurou encontrar um grupo humano que viva de forma absolutamente tradicional e preservado das influências da sociedade contemporânea, para determinar como é o funcionamento “natural” do corpo da mulher.

O texto narrava: "Em 1986, a jovem cientista Beverly Strassmann viajou para a a África para viver com os Dogon, uma tribo do Mali (país da África Ocidental, dominado ao norte pelo deserto do Saara). O local de sua pesquisa era a vila de Sangui, no Sahel (o limite do grande deserto), cerca de 200 quilômetros ao sul de Timbuktu. Sahel está localizada em uma região de transição entre a savana e o deserto, é verde na época das chuvas e semi-árido o resto do ano. Os Dogum plantam painço, sorgo, cebolas, criam gado e vivem em casas de adobe nas falésias de Bandiagara. Eles não usam métodos contraceptivos. Muitos deles mantêm os costumes e religião de seus ancestrais. Os Dogon de hoje, em muitos sentidos, vivem como os povos desse local viviam desde a Antiguidade.”

Ao procurar um povo enraizado, uma raridade no mundo contemporâneo (em que a maior parte dos povos é migrante), vivendo de forma tradicional mais ou menos onde sempre esteve, a pesquisadora procurou encontrar o funcionamento do ciclo menstrual e dos costumes reprodutivos de uma cultura arcaica. Em outras palavras, ela queria encontrar como funcionava a reprodução humana antes da nossa era “no milênio anterior a nosso tempo”, como diz o autor no artigo da New Yorker.

Quando menstruadas, as mulheres Dogon ficam em uma casa separada do resto da vila. Na aldeia em Sangui, onde Beverly Strassmann ficou durante dois anos e meio, havia duas casas dessas para as mulheres menstruadas. Seu trabalho consistia em listar todas as mulheres da aldeia, classificá-las quanto a idade e anotar cada vez que iam para a casa das menstruadas, quando ficavam grávidas e quando amamentavam.

Em resumo, sua conclusão mostra que nas sociedades tradicionais, pré-Era Industrial, as mulheres ficavam menstruadas mais tarde (em torno dos 16 anos), ao longo de sua vida fértil tinham muitos filhos e enquanto amamentavam seus hormônios reprimiam a ovulação (e portanto elas não menstruavam por aproximadamente 20 meses somando gravidez e amamentação). Assim, da menarca à menopausa (em torno dos 50 anos) a mulher Dogon tinha cerca de 100 menstruações. Já a mulher típica de uma sociedade urbanizada contemporânea tem em sua vida fértil entre 350 e 400 menstruações.

Em outras palavras, ao longo dos dois últimos séculos, a cultura moderna multiplicou por quatro o número de menstruações da mulher, aumentando todos os desgastes decorrentes desse processo.

A hipótese de muitos estudiosos é que a TPM é uma conseqüência desse mesmo processo. A multiplicação do efeito dos hormônios e dos desconfortos decorrentes da menstruação, do seu desgaste físico e psicológico teria como efeito a Tensão Pré-Menstrual, inexistente ou benigna nas sociedades tradicionais.

***

O texto de Malcolm Gladwell para a “New Yorker” está disponível no site do autor (http://www.gladwell.com/).

O trabalho do professor Elsimar Coutinho pode ser conhecido em seu site www.elsimarcoutinho.com.br, onde há uma seção com a lista de seus trabalhos, ou através do livro mais famoso, “Menstruação, a Sangria Inútil”.

Com uma trajetória próxima da de Elsimar mas divergente sobre o uso de hormônios artificiais para “corrigir” o funcionamento “obsoleto” da menstruação e do ciclo hormonal da mulher, o médico Eliezer Berenstein é autor de livros e conferências sobre TPM. Seus trabalhos podem ser conhecidos em seu site www.tpm.com.br onde relaciona seus livros, como “A Tensão Pré-Menstrual e o Tempo para Mudanças”.



enviada por L



29/02/2008 20:38

Corte de crédito na Amazônia serve só para enganar o público

Atualizado em 1/3/2008

A medida anunciada pelo governo federal nesta quinta-feira (que foi destaque nas edições de jornais de sexta), que prevê restrições de crédito a fazendas na Amazônia como forma de limitar o desmatamento, é inócua e provavelmente saiu da cabeça de profissionais de marketing, não de pessoas focadas no combate ao desmatamento.

A indústria madeireira é tão ilegal quanto o tráfico de drogas ou o contrabando. Cortar o seu crédito tem efeito semelhante ao corte de crédito para a compra de munição de AR15 por traficantes de cocaína. Nenhum.

A medida tem impacto efetivo apenas para um segmento específico da economia amazônica: os pecuaristas já implantados. Não afeta os madeireiros, não afeta os invasores de terras, os pequenos ocupantes que devastam e nem os produtores de soja, todos eles agentes importantes do desmatamento.

Por que?

As madeireiras não dependem de crédito, não têm propriedade de terras e portanto sua ação predatória (que inclusive inclui invasões à revelia dos proprietários de terras e reservas) não será interrompida.

Quanto aos madeireiros, portanto, a medida tem o impacto do corte de crédito para traficantes.

Para chegar às árvores de madeiras nobres, as madeireiras abrem na selva uma rede de verdadeiras estradas, que não aparece nas fotos de satélites. Depois de arrancar suas presas, com grandes tratores, esses caminhos passam a servir para a ocupação capilarizada da floresta por pequenos ocupantes, micro-sitiantes, ocupantes, invasores etc.

A devastação da floresta diretamente pelas madeireiras, tem portanto um segundo efeito ainda mais daninho.

Esses pequenos sitiantes, ocupantes, invasores que vêm na esteira da retirada das madeiras mais valiosas não têm tampouco acesso ao crédito, nem oficial nem privado. Vivem à margem do mundo oficial. Para sua implantação, precisam desmatar, normalmente com fogo. Se ainda existe madeira de interesse para madeireiros nas terras que ocupam, seu primeiro investimento costuma ser garantido exatamente pelo madeireiro (seu “agente financeiro”). Com o dinheiro que as serrarias pagam para extrair essas madeiras, os sitiantes pagam sua implantação, seus primeiros insumos.

Quanto aos pequenos ocupantes que chegam à floresta através da rede capilarizada de estradas abertas na mata pelos exploradores de madeiras mais valiosas também a medida governamental não terá impacto.

A quem ela afeta então? A agricultores que demandam crédito? São poucos, na Amazônia. Por exemplo, os que plantam soja têm nas grandes empresas compradoras crédito suficiente, antecipado (e como empresas agro-industriais, não-financeiras, estão fora das regras impostas pelo governo).

Aos pecuaristas? Sim, mas provavelmente com pouco impacto sobre o desmatamento, pois poucos deles desmatam primariamente por causa da pecuária. Muitas vezes, o gado chega depois que a terra já foi desmatada ou parcialmente desmatada (muitas vezes também fazem das madeireiras uma primeira fonte de renda); outras vezes, o pecuarista adquire a terra “aberta” pelo pequeno sitiante, que por sua vez usou a rede de caminhos aberta pelos madeireiros. Portanto, para esses pecuaristas, tampouco, o enxugamento do crédito oficial terá impacto.

Aos pecuaristas já implantados há mais tempo, talvez o corte do crédito abata a capacidade econômica. Mas neste caso, tem alguém com muito dinheiro disposto a investir em suas terras: se ainda houver floresta, os madeireiros poderão pagar por ela e dar fôlego ao pecuarista; se não houver, os agricultores de soja, que não dependem de crédito de agentes financeiros, vão comprar suas terras e converter as pastagens em área de plantio de soja.

Assim, o impacto da medida anunciada na quinta e saudada com grande destaque pelo jornalismo brasileiro na sexta-feira, em verdade, tem efeitos parcos. Talvez até crie um indesejado ciclo de crescimento da cultura de soja, em vez de atingir o efeito pretendido.

***

MINHA OPINIÃO:

Em vez de atuar apenas com medidas repressivas em reação à atividade econômica atual na região amazônica, o governo deveria investir pesado em geração de atividades econômicas que preservam o meio ambiente.

O desprezo tradicional do governo federal pelo assunto abre espaço para a hegemonia da atividade predatória que, no médio prazo é empobrecedora para o país.

Exemplos de atividades altamente lucrativas na selva não param de surgir. Mas demandam investimentos para adquirirem um ritmo que permita contrapor-se à devastação.

A receita de toda a indústria da madeira na Amazônia (que é uma indústria que não gera riqueza, deixa apenas milhares de lumpens como os que se vê em Tailândia e um pequeno grupo de milionários em Belém, prontos para a próxima aventura ilegal) não equivale a uma semana de produção da economia paulista que será abatida com o aquecimento do Sudeste pela devastação amazônica. Compensa mais para o Brasil (do ponto de vista de arrecadação de impostos, de emprego e de preservação ambiental) que o governo federal pague um salário maior do que os madeireiros para que cada funcionário de Tailândia fique em casa.

O pacto federativo norte-americano tem paradigmas que podem inspirar ações do Estado brasileiro nesse caso. O Estado mais rico dos EUA, a Califórnia, depende da preservação ambiental de seus vizinhos do centro americano, como o Colorado. A Califórnia paga pela água que recebe do degelo da neve nas montanhas do Colorado. Ela precisa dessa água que portanto não pode vir a ser consumida por um eventual crescimento da população e da atividade econômica no Colorado. Então, que pague por isso. É o que São Paulo, Minas e Paraná, por exemplo, podem fazer para Amazonas e Pará, que em compensação terão que garantir os efeitos positivos da preservação.

A questão é semelhante ao tráfico de drogas: a lógica interna do sistema não prevê conciliação possível com o Estado. Gera empregos e se coloca como alternativa ao Estado onde quer que atue. A única solução é contrapor atividades alternativas em sua zona de influência.

O turismo, a indústria farmacêutica, o design com espécies nativas, a cultura de espécies são atividades promissoras para as quais o governo brasileiro quase não dá atenção. Tem preferido comemorar os números do PIB beneficiados pelo cada vez “maior rebanho do mundo” (que cresce à custa da floresta).

enviada por L



25/02/2008 01:15

Governo deixado por Fidel é a prova de seu recôndito racismo

Leão Serva

A renúncia de Fidel Castro despertou reações apaixonadas em todo o mundo, em toda a imprensa. Apaixonadas a favor e contra. Mas ninguém comentou um tema que é tabu em Cuba e para as esquerdas de todo o mundo, que é o impressionante "branquismo" de Fidel.

Aristocrata de esquerda, Fidel é líder de um país semelhante à região de Salvador, na Bahia, ou ao Distrito Federal de Washington (DC), nos EUA: áreas de grande concentração de populações oriundas da escravidão, tornaram-se regiões de população predominantemente negra. Cuba é um país africano no Caribe, por assim dizer, como a Jamaica e outras ilhas.

No entanto, essa negritude é ausente do círculo de poder de Fidel Castro. Desde o início: seu bando de guerrilheiros mais parecia uma tropa de intervenção européia na ilha negra: eram todos brancos como o líder e o argentino Che Guevara.

Quem sempre chamou a atenção para esse racismo discreto foi o escritor Guillermo Cabrera Infante, que de simpatizante e colaborador de Fidel, com cuja diplomacia colaborou, passou a dissidente em 1966, morrendo no exílio há exatos três anos.

Cabrera era um entusiasta da música cubana, seus livros transpiram música cubana, uma música que como manifestação da cultura do povo do país, é negra.

Por isso talvez tivesse mais atenção com o que Cuba fazia de seus negros. E vivia atacando o racismo de Fidel, em suas entrevistas e nas manifestações possíveis a um exilado, a distância que o "Comandante" mantinha dos negros.

A revista "Época" desta semana que se inicia (nas bancas desde sábado) tem um quadro com os principais políticos cubanos desde momento, uma espécie de "árvore sucessória". Sem chamara atenção, deixa claro o tema.

Lá no alto, reina o primeiro-irmão, o branco Raul Castro, que dá sequência à dinastia Castro (com o que Cuba se iguala a outro regime comunista sobrevivente da ruína dos anos 1990: Coréia do Norte); depois, vários outros brancos; na rabeira da fila há um negro, que se está lá como exceção para fazer crer que o país é uma democracia racial, apenas comprova a tese.

***

A comparação entre Cuba, Washington DC e Salvador desperta duas outras constatações: a capital norte-americana elege governantes negros; a política baiana, embora decidida em Salvador, é dominada por brancos.
enviada por L



22/02/2008 13:56

O nacionalismo, como a TPM, é criação da cultura moderna

Revisto e atualizado em 25/2/2008)

Uma pessoa que acorde hoje e veja a briga que dos albaneses de Kossovo para se tornar independentes ao mesmo tempo em que sérvios brigam para manter a hegemonia da Sérvia sobre o território do Kossovo deve achar "normal" essa luta. Afinal, os dois povos disputam por nacionalismo, ideologia igual mas com interesses e sinais antagônicos.

No entanto, o nacionalismo é uma criação recente do mundo, mais ou menos como a TPM (a tensão pré-menstrual) da mulher, o comunismo, o samba, o jazz e a arte abstrata. São manifestações culturais contemporâneas, não existiram por toda a história da humanidade e possivelmente venham no futuro a desaparecer.

O homem contemporâneo tem, naturalmente, dificuldade de recordar como as coisas chegaram a ser como são hoje. O mundo ao seu redor tem aparência de naturalidade. Assim como nossos netos vão achar natural viver o dia-a-dia sob a temperatura de uma sauna, os paulistanos de hoje têm dificuldade de entender porque os mais velhos chamam a cidade de São Paulo de "terra da garoa".

Também parece natural que o Brasil e os Estados Unidos sejam países formados por tantas etnias diferentes e com tão poucas manifestações de atritos étnicos ou raciais, mas poucos se lembram que em 1960 os Estados Unidos viviam ainda um regime de apartheid (separação entre raças) em muitos de seus Estados. A rigor, os jovens de hoje talvez nem saibam o que é apartheid e legitimamente considerem a África do Sul um país multiétnico sob hegemonia negra, o que o país é, embora tenha vivido uma sofrida história para chegar até aí.

Assim, é muito difícil entender hoje que Nacionalismo é uma ideologia recente, uma criação do século 19, em contraposição aos grandes impérios supranacionais e multi-étnicos que marcaram o renascimento.

A idéia de nacionalidade como manifestação de etnia ou homogeneidade populacional (de qualquer tipo, religiosa, lingüística ou cultural) é muito recente na história do mundo. Até o surgimento do nacionalismo no século 19, súdito de uma nação era aquele que estava incluído por diversas razões (mas basicamente pela história e pela força político-militar) em um território controlado por um Estado nacional. Assim, "francês", por exemplo, não era um conceito associado à idéia de uma "etnia" ou de uma língua ou qualquer outra idéia de "homogêneo" francês. "Francês" era qualquer pessoa, de qualquer cor, etnia, língua ou religião, que coincidiu de estar dentro das fronteiras do território da França. Por isso são franceses os francos, os nascidos no país D'Oc, os bretões, os bascos que por acidente nasceram ao norte dos Pirineus, os catalães que por acidente nasceram ao norte dos Pirineus, germanos nascidos em território controlado por Paris.

Outro exemplo claro (talvez mais conhecido dos brasileiros) é o dos turcos. Quando um brasileiro dá o apelido de "Turco" para um conhecido, a maior parte das vezes essa pessoa tem nome árabe. Por razões históricas, a estatística indica que quase certamente esse sobrenome árabe é de origem sírio-libanesa; mais das vezes, se trata de um descendente de imigrantes libaneses (cerca de 3 milhões só na Grande São Paulo).

Turcos são povos originários do Centro da Ásia, de onde migraram para o sudoeste (em direção à Ásia Menor e aos Bálcãs) ao longo dos primeiros séculos do segundo milênio da era Cristã (de 1100 a 1500). Em sua longa jornada, se converteram ao Islamismo, e conquistaram os países que eram dominados pelos árabes, um vasto império que decaiu a partir do Renascimento, até restar apenas com o território da Ásia Menor, atual Turquia.

Os libaneses que vieram para o Brasil no final do século 19 são predominantemente cristãos, árabes que não se converteram ao islamismo, que formam uma população descendente dos povos que habitavam o território que na antiguidade era o berço dos fenícios.

Mas por que os brasileiros chamam de "turco" os descendentes de libaneses se há uma distância tão grande entre esses povos?

Porque os libaneses que vinham para o Brasil viajavam com documentos dados pelo seu país de origem, a Turquia, o Império Otomano, com capital em Istambul.

Os antigos impérios tinham a característica de manter dentro de suas fronteiras povos diferentes. Não passava pela cabeça de um monarca otomano imaginar que seus súditos egípcios tivessem que ter a mesma cor, etnia, língua, religião que os povos originalmente turcos. Os árabes do Iêmem, por exemplo, súditos do Império Otomano até o começo do século 20, mantiveram por séculos a língua árabe e seus hábitos culturais tão diferentes dos turcos de Meca. O mesmo ocorreu com os curdos do Iraque, com os Armênios, os judeus de Sarajevo etc etc e tal. Isso valia para os súditos árabes, turcos, assírios, eslavos, gregos, negros etc. Os impérios eram organizações plurais, do ponto de vista demográfico.

O que ocorria com o Império Otomano ocorreu antes com o Império Romano: não passava pela cabeça de um imperador romano que todos os povos de Roma tivessem que ser homogêneos. Adotava-se o latim para funções de Estado, aprendia-se o latim nas melhores escolas e ele era uma forma de inclusão na elite. Mas como súditos de Roma, os judeus de Jerusalém seguiam falando seu aramaico no dia-a-dia ou hebraico nas funções religiosas. Os súditos romanos na Grécia seguiam falando grego e estudando no original os livros de Homero. Sem no entanto perder os direitos à cidadania romana, uma espécie de contrapartida pelos impostos pagos à coroa.

Voltando três parágrafos para trás, os cidadãos “turcos” do século 19 eram os que viviam sob as fronteiras do império turco, chamado Otomano, fossem libaneses, egípcios, iemenitas, curdos, armênios etc. Como milhares de libaneses vieram para o Brasil, com seu passaporte turco, na época, ganharam esse apelido.

A noção de país não tem portanto, essencialmente, a ver com povo específico, com homonegeneidade étnica, lingüística, religiosa, cultural ou qualquer coisa desse tipo. Um país é um dado objetivo, que tem mais relação com a força de seus exércitos, com os fluxos econômicos entre áreas diferentes de seu território e com o que ficou para fora.

São exemplos contemporâneos dessa assintonia entre povo e nação os Estados Unidos (que ao contrário do senso comum nem língua oficial tem, exatamente para assegurar direitos iguais a pessoas de qualquer língua) e o próprio Brasil, que tem dentro de suas fronteiras alemães-étnicos, descendentes de japoneses, judeus, índios e negros que falam dialetos misturados de ioruba com português. Mas todos são “brasileiros” de pleno direito.

Uma ocorrência inversa, que comprova a tese, é a de povos que não têm nação que os represente numa relação biunívoca. Os casos mais conhecidos são os dos judeus, dos ciganos; há também povos que são predominantes em certas regiões geográficas mas ainda assim não têm uma nação “para chamar de sua”: é esse o caso dos curdos e dos palestinos, por exemplo.

No caso dos judeus, em meados do século passado existe um país que reivindica a condição de “país dos judeus”, no entanto até hoje ele contém apenas uma pequena parte da população judaica do mundo (em verdade, só a grande Nova York tem mais judeus que em Israel) e a imensa maior parte tem história de migração recente para o país que completa 60 anos este ano.

Desde o final do primeiro século da era cristã (e até 1948), os hebreus formam um povo com religião, cultura e língua próprias, com especificidade genética (que prova menos sobre sua origem remota mas sobre o hábito cultural de se relacionar dentro da comunidade) e sem país, sem território. São uma nação, teoricamente, mas mesmo assim, o povo judeu viveu quase dois mil anos sem país.


enviada por L






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